Teatro precisa de se afirmar como “lugar épico” perante pandemia e guerra



“Enquanto o mundo se mantém suspenso, a cada hora e minuto, de uma profusão diária de reportagens noticiosas, será que posso convidar-nos, enquanto criadores, a mergulharmos” na nossa focalização, esfera e perspetiva específicas “acerca de: tempo épico, mudança épica, reflexão épica e visão épica?”, questiona o encenador norte-americano, de teatro e ópera, Peter Sellars, como autor convidado, pelo Instituto Internacional do Teatro, para redigir a mensagem oficial do do Dia Mundial do Teatro, que se assinala no domingo.

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Para Peter Sellars, vivemos um “período épico da História” com “profundas e consequentes mudanças” nas relações entre os seres humanos “e para com mundos não humanos, que estão para lá das nossas capacidades de compreender, articular, falar e expressar”.


“Nós não vivemos num ciclo noticioso de 24 horas, nós vivemos à margem do tempo. Os jornais e os meios de comunicação estão completamente desequipados e são incapazes de lidar com o que estamos a `experenciar`”, a vivenciar, escreve o encenador, optando sempre pelo uso da primeira pessoa do plural, e pelo envolvimento comum que essa opção implica.


Por isso, Peter Sellars convida os criadores a acrescentarem outro entendimento que possa “ajudar-nos” a compreender as mudanças em curso.


“Onde está a linguagem, quais os passos e quais as imagens que nos permitirão compreender as profundas alterações e ruturas que experimentamos?”, interroga-se, encaminhando o argumento para a representatividade do teatro, ou seja, “como poderemos transmitir o conteúdo das nossas vidas, neste preciso momento, não como reportagem, mas enquanto experiência?”


“O teatro é a forma da experiência” face a “mundo fustigado” por extensas campanhas de comunicação, “experiências simuladas, prognósticos sinistros”, sustenta, interrogando-se sobre as possibilidades de ir “além da repetição interminável de números para exprimir a santidade e o infinito de uma única vida, de um único ecossistema, de uma amizade, ou da qualidade da luz num céu estranho”.


Sublinhando que dois anos de covid-19 “toldaram os sentidos às pessoas, restringiram as suas vidas, quebraram ligações”, colocando-as “num estranho grau zero da vida humana”, Peter Sellars questiona “que sementes” são necessárias “semear e voltar a semear”, nestes anos em que “tantas pessoas estão no limite” e em que “tanta violência deflagra, irracional ou inesperadamente”.


“Há tantos sistemas estabelecidos que foram expostos como estruturas de crueldade continuada”, que se impõe a interrogação sobre que “cerimónias de evocação” precisamos mais, “para começar a ensaiar passos que nunca tenhamos dado antes”, escreve o encenador que trabalhou “Ajax”, a tragédia de Sófocles, em 1986, demonstrando que “as guerras põem em marcha um desejo de sangue cada vez maior”, como então escreveu o jornal The New York Times, sobre essa produção.


Cerca de 35 anos mais tarde, Sellars equaciona, na mensagem para o Dia Mundial do Teatro, que se impõe assim, que um “teatro de visão épica, de propósito, de recuperação, reparação e cuidado, precisa de novos rituais”.


“Não precisamos de ser entretidos”, sublinha o encenador que também deu nova vida a óperas de Mozart, e visão a obras para palco de John Adams.


“Precisamos, sim – afirma – de reunir, partilhar espaço e cultivar o espaço partilhado”. “Precisamos de espaços protegidos de audição profunda e de igualdade”, defende.


O teatro “é a criação na terra de um espaço de igualdade entre humanos, deuses, plantas, animais, horas de chuva, lágrimas e regeneração”, assegura.


Num momento em que “estamos tão certos daquilo que vemos e da forma como vemos que não somos capazes de ver e sentir realidades alternativas, novas possibilidades, abordagens diferentes, relações invisíveis, conexões intemporais”, Peter Sellars defende – usando sempre a primeira pessoa do plural, num compromisso comum com o teatro, pelo teatro – que este “é um tempo para um profundo refrescar das nossas mentes, dos nossos sentidos, das nossas imaginações, das nossas histórias e dos nossos futuros”.


Trabalho que “não pode ser feito por pessoas sozinhas, trabalhando isoladamente”, mas sim “juntos”.


“O teatro é o convite” para esse trabalho conjunto, conclui o encenador.


Criado pelo Instituto Internacional do Teatro, em 1961, e instituído no ano seguinte, o Dia Mundial do Teatro assinala este ano o 60º aniversário das suas celebrações.


A tradução da mensagem deste ano, para português, foi feita por Ricardo Simões, do Teatro do Noroeste — Centro Dramático de Viana.



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