Incidentes com migrantes em Melilla visaram “provocar problemas” a Marrocos e Espanha diz embaixador



“Em Melilla nunca aconteceu nada desta dimensão [como os incidentes de 24 de junho], com dezenas de migrantes mortos, muitos provenientes do Sudão e do Sudão do Sul”, indicou o embaixador Otmane Bahnini num encontro com jornalistas na representação diplomática.


“Parece existir a vontade de colocar problemas a Marrocos e a Espanha e há indicações que Marrocos pode confrontar-se com mais situações”, admitiu o diplomata, numa referência aos recentes acontecimentos junto à fronteira comum, no norte do país magrebino.


O embaixador marroquino em Lisboa enunciou hoje as três vias utilizadas pelos migrantes que pretendem alcançar a Europa: uma situada a leste através da Síria, a central através da Líbia – considerada a menos vigiada e a mais utilizada – e a ocidental, através de Marrocos.


Otmane Bahnini questionou o facto de os migrantes sudaneses terem optado por esta última, sendo forçados a uma longa travessia pelo deserto da Líbia, e através da vizinha Argélia.


“Eram 2.000 pessoas preparadas, organizadas e armadas, muitas com armas brancas”, assinalou, indicando que a polícia marroquina apenas utilizou gás lacrimogéneo e bastões para enfrentar os migrantes, que tentaram ultrapassar o posto fronteiriço através de “quatro corredores estreitos”, originando o tumulto.


Marrocos considera que se assistiu a uma “agressão” e refere-se a uma “estratégia de assalto” que também incluiu uma “estrutura hierárquica de dirigentes experientes, com o perfil de milicianos treinados em zonas de conflito”, numa referência velada à Argélia, apoiante da Frente Polisário que desde a década de 1970 combate pela autonomia do Saara ocidental.


Segundo as autoridades marroquinas, pelo menos 23 pessoas, na maioria de origem sudanesa, morreram quando cerca de 2.000 migrantes tentaram transpor a passagem e o muro de separação gradeado que separa Melilla da cidade fronteiriça marroquina de Nador, havendo registo de 76 feridos, 18 ainda hospitalizados.


No entanto, diversas Organizações não governamentais (ONG) referiram-se a “pelo menos 37 migrantes mortos”, num incidente que já motivou diversas manifestações de protesto em várias cidades espanholas contra “as políticas migratórias materializadas na brutalidade policial e na militarização das fronteiras”, e quando forças seguranças espanholas do enclave também se envolveram nos incidentes.


Este drama, o mais mortífero registado nas fronteiras entre Marrocos e Ceuta e Melilla – as únicas fronteiras da União Europeia no continente africano – provocaram a indignação internacional, em particular uma reação severa da ONU, e a abertura de três inquéritos, dois em Espanha e um em Marrocos.


Ao reagir aos acontecimentos, a ONU considerou que Marrocos e a Espanha fizeram “uso excessivo da força”, enquanto a ONG Amnistia Internacional (AI) pediu ao Governo de Espanha e às autoridades marroquinas que avancem com investigações independentes para “apurar as responsabilidades” das “violações de direitos humanos cometidas” na fronteira de Melilla.


O embaixador marroquino em Lisboa não dissociou o incidente do atual contexto internacional, assinalado pelo persistente conflito na Ucrânia e numa situação em que importantes matérias-primas ou produtos alimentares estão a encarecer, podendo mesmo vir a escassear.


“Marrocos pode estar cada vez mais confrontado com estes fenómenos migratórios”, admitiu Otmane Bahnini, e insistindo em relacionar os acontecimentos à atitude da vizinha Argélia, que tem denotado uma “posição hostil e permanente” face a Marrocos, em particular após a reaproximação e cooperação reforçada entre Marrocos e Israel.


Este estreitamento de relações marroquinas com Israel inclui o campo da segurança e defesa.


A recente posição de Espanha, que reconheceu a soberania de Marrocos sobre o Saara ocidental em troca de diversos acordos que incluem a segurança das fronteiras comuns e o controlo das migrações, também motivaram um aumento da tensão na região.


Apesar da “crescente hostilidade” de Argel face a Marrocos, expressa também nos cortes do fornecimento de gás, o representante do reino alauita também recordou os laços, inclusive familiares, que unem os dois países magrebinos.


De acordo com Rabat, a “política de integração de migrantes” constitui “um caminho estratégico que enriquece a diversidade e vitalidade da sociedade marroquina”, para além de pretender reforçar “a política de regresso voluntário dos migrantes aos seus países de origem, no respeito pelos seus direitos e dignidade”.



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