Mundial. Os Direitos Humanos e a resposta dos líderes políticos de todo o mundo


O boicote do Ocidente ao mundial no Catar foi desde logo visível na cerimónia do arranque do campeonato, no domingo, que não contou com a presença de nenhum chefe de Estado dos principais países ocidentais, exceto a França.

A lista de altos representantes que compareceram à cerimónia de abertura foi dominada, principalmente, por líderes árabes. Entre os presentes, destacaram-se o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, um aliado próximo do Catar, e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. O governador do Dubai e os presidentes do Egito, Ruanda, Palestina e da Argélia, bem como o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também estiveram presentes na cerimónia inaugural do Mundial.

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A quase total ausência dos líderes, maioritariamente europeus, deve-se às inúmeras polémicas que têm ofuscado o Mundial. Para além da discriminação da mulher e da criminalização da homossexualidade, a violação dos Direitos Humanos está no cerne das contestações, já que se estima que milhares de trabalhadores migrantes tenham morrido na construção das dezenas de infraestruturas desenhadas para o campeonato.

Da parte da Dinamarca, sabe-se que a família real não irá viajar para o Catar porque não quer compactuar com a violação dos Direitos Humanos, o que significa que Copenhaga não estará oficialmente representada durante a competição.


O Reino Unido também não terá representação por parte da família real no campeonato, depois de o rei Carlos III e o príncipe William terem alegado ter uma agenda sobrecarregada. O novo primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, também já anunciou que ”não planeia” deslocar-se ao Catar, afirmando não ter agenda para a deslocação. A representação do país deverá ficar, por isso, a cargo do ministro dos Negócios Estrangeiros, James Cleverly, que foi criticado por ter pedido aos fãs LGBTQ que “respeitem a lei” do país anfitrião.




Da parte da União Europeia, nenhum alto funcionário irá viajar para o Catar. O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a presidente do Parlamento da UE, Roberta Metsola, e o alto representante para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, confirmaram que não irão marcar presença no mundial deste ano.

Três líderes portugueses vão ao Catar

Mas, se por um lado vários líderes têm feito questão de se demarcarem deste mundial e de anunciarem o seu boicote, outros têm preferido manter-se em silêncio e outros já têm os ingressos para o Catar.



A lista destes últimos é bem maior e entre eles está Portugal, que estará representado por várias figuras oficiais. Apesar dos apelos de alguns partidos, Marcelo Rebelo de Sousa marca presença no primeiro jogo da seleção portuguesa, na quinta-feira.

A visita do presidente da República ao Catar estava dependente da votação no Parlamento, que esta segunda-feira deu “luz verde”. A autorização foi aprovada com os votos favoráveis do PS, PSD e PCP. Todas as viagens de Estado do PR têm de ser autorizadas pelo Parlamento. No entanto, até hoje, este pedido tem sido apenas uma formalidade, já que nenhuma viagem presidencial foi recusada pelos deputados nos últimos 42 anos.



O Bloco de Esquerda e a Iniciativa Liberal votaram contra, insistindo que a deslocação do Presidente da República ao Catar legitima o atentado contra os Direitos Humanos.
Várias vozes do PS também se têm mostrado contra a presença de altas figuras do Estado no mundial, nomeadamente Ana Gomes, Sérgio Sousa Pinto e Alexandra Leitão.

A polémica em torno da ida de Marcelo Rebelo de Sousa ao Catar ganhou força na semana passada, depois de o presidente da República ter sugerido esquecer a questão dos direitos humanos e focar as atenções na seleção nacional de futebol. “O Catar não respeita os Direitos Humanos. Toda a construção dos estádios e tal…, mas, enfim, esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na equipa”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

Perante as críticas, o presidente da República viu-se na obrigação de esclarecer e ressalvou que pretende falar de direitos humanos. “Vou pela seleção nacional”, insistiu Marcelo.

António Costa também alinhou com o discurso de Marcelo e afirmou que vai ao Catar apoiar a seleção e não ser cúmplice do regime daquele país. “Quando formos lá, não vamos seguramente apoiar o Catar, o regime do Catar, a violação dos Direitos Humanos e a discriminação das mulheres. Quando formos lá, vamos apoiar a seleção nacional”, disse o primeiro-ministro. António Costa marcará presença no último jogo de Portugal na fase de grupos, a 2 de dezembro. No jogo anterior, a 28 de outubro, será o presidente da Assembleia da República a representar Portugal no Catar.


Em França, as declarações do presidente Emmanuel Macron também geraram controvérsia depois de este ter rejeitado boicotar o mundial, uma vez que um boicote ao Mundial do Catar significaria um boicote a um dos principais parceiros económicos.



Macron recusou “politizar o desporto” e defendeu que a questão dos Direitos Humanos devia ter sido discutida na altura em que o Catar foi nomeado país anfitrião do campeonato. O presidente francês sublinhou que apenas irá ao Catar se os gauleses se qualificarem para as meias-finais.



Já do outro lado do Atlântico, a polémica da violação dos Direitos Humanos no Mundial não teve qualquer eco. Possíveis boicotes à participação no campeonato por parte dos EUA nunca estiveram em cima da mesa. O secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, aterrou esta segunda-feira no Catar passa assistir ao jogo da equipa norte-americana frente ao País de Gales e e irá aproveitar a visita para manter várias cimeiras bilaterais para estreitar os laços entre os EUA e o Catar.




As autoridades do Catar criticaram a “hipocrisia” e lamentaram a “politização” do evento. O presidente da FIFA também acusou a Europa de racismo e “pura hipocrisia” pelas acusações de exploração laboral de imigrantes no país.

Em 2021, uma investigação do jornal britânico The Guardian concluiu que mais de 6500 trabalhadores da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka morreram no Catar desde que o país se prepara para receber o campeonato do mundo de futebol. O jornal estima mesmo que, nos últimos 12 anos, cerca de 12 trabalhadores migrantes tenham morrido em cada semana.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) diz que morreram 50 trabalhadores em 2020, mas a Amnistia Internacional garante que o número de mortes ascende os 15 mil.



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